Conheça a corrida em que a Arrows quase conquistou a primeira vitória na Fórmula 1. Foto em destaque: Getty Images/Divulgação F1
O dia era 10 de agosto de 1997, e até aquele momento, haviam várias histórias ocorrendo na temporada da Fórmula 1. Michael Schumacher da Ferrari era o atual líder da classificação e estava travando uma dura batalha contra Jacques Villeneuve da Williams ao longo do ano. O alemão largaria da Pole Position em naquele fim de semana em Hungaroring, a frente de seu rival canadense.
Mas, os holofotes de parte do público se centravam no piloto que largaria logo atrás dos dois. Na terceira posição do grid, estava alinhada a Arrows-Yamaha do britânico Damon Hill, que até aquele momento no ano, sempre era vista no fundo do pelotão. Mas, nem sempre era uma coisa surpreendente ver o escocês largando entre os primeiros.

Filho do campeão mundial Graham Hill, a jornada de Damon na Fórmula 1 começou em 1991, quando ele se juntou a equipe Williams como piloto de desenvolvimento, enquanto ainda competia na Fórmula 3000. Mas em 1992, Hill estreou de vez na Fórmula 1, entrando na decadente equipe Brabham no lugar do belga Eric Van De Poele. Em oito corridas disputadas pela equipe, ele conseguiu se classificar duas vezes para o grid, e terminou entre os últimos em ambas as largadas.
Devido a diversas dívidas e problemas financeiros, a equipe Brabham acabou fechando as portas pouco depois do GP da Hungria. Assim o escocês retornou ao seu posto de piloto de testes da Williams, tendo sido uma peça importante para o desenvolvimento do carro que daria o título a Nigel Mansell naquele mesmo ano.
Em 1993, Hill conseguiu a chance de entrar na Fórmula 1 de maneira definitiva. Depois de levar o título em 1992, Mansell decidiu sair da F1 para competir na CART pela equipe Newman-Haas, enquanto seu companheiro de equipe, o veterano Riccardo Patrese, anunciou sua aposentadoria, depois de competir na categoria desde 1978.
Assim, a equipe inglesa contratou o tricamepão Alain Prost para substituir Mansell, e colocou Hill como seu companheiro de equipe. Então, logo em seu segundo ano na categoria, o inglês já correria com a melhor equipe do grid; e ele não fez feio em sua primeira temporada completa.
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Com três vitórias e mais sete pódios, Hill foi constante no pelotão da frente, perdendo espaço apenas para os ícones Alain Prost e Ayrton Senna, e terminando o ano em terceiro no campeonato. Depois dessa primeira temporada forte, 1994 seria um ano para ele se impor de vez, já que Prost se aposentou após o fim de 1993, e Senna iria substitui-lo a partir do ano seguinte.
Em um ano marcado por tragédias e polêmicas técnicas, Hill começou o ano fraco, mas conforme a Williams foi introduzindo modificações no FW16, ele foi avançando cada vez mais campeonato, alcançando o líder Michael Schumacher perto da reta final do ano. Após Schumacher ter sido excluído de dois GPs perto do fim do ano, Hill conseguiu assumir de vez a liderança.
O inglês chegou extremamente perto de levar o título naquele ano, mas acabou perdendo para Schumacher na última prova em Adelaide, após os dois colidirem e abandonarem a prova. Em 1995, novamente Hill chegou a se aproximar de Schumacher, mas o alemão acabou levando o campeonato com vantagem.
1996 foi definitivamente o melhor ano do inglês até então. A Williams conseguiu fazer um carro extraordinário, enquanto Schumacher demorou para decolar em sua estréia na Ferrari, e o mais próximo que Hill teve de um rival foi seu novo companheiro de equipe Jacques Villeneuve, campeão da CART em 1995.

Ao longo do ano, Hill dominou o campeonato, largando da primeira fila em todas as corridas do ano, e levando o título no GP do Japão, após Villeneuve abandonar a prova. Entretanto, apesar da performance fantástica no ano, ele acabou não conseguindo renovar seu contrato com a equipe para 1997.
Por conta de desavenças nas negociações entre Frank Williams e o empresário de Hill, Michael Greene, o inglês acabou não assinando com a equipe. Assim, ele foi atrás de conversar com equipes como Benetton, McLaren e até mesmo a Ferrari, mas com nenhuma delas as negociações foram para frente.
No fim, Hill acabou assinando para correr com a equipe Arrows em 1997. Fundada em 1978, a Arrows era uma equipe que já tinha bastante história na categoria, mas que vinha andando entre últimas desde a virada dos anos 80 para os 90, não vencendo uma corrida sequer nos últimos vinte anos, e tendo marcado apenas um ponto em 1996.
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E já desde o começo da temporada, dava para se ter uma noção de o quanto o ano seria ruim para o atual campeão mundial. Na abertura da temporada, em Melbourne, ele sofreu para se classificar e abandonou a prova ainda na volta de apresentação por conta de problemas no seu motor Yamaha. A partir dali, também já eram claras quais seriam as dificuldades de Hill com o time.
A péssima confiabilidade e a baixa potência do motor Yamaha, aliado ao fraco chassi A18, tornariam a temporada um verdadeiro desafio para o inglês. Ele abandonou as próximas duas corridas no Brasil e na Argentina por problemas no motor, e abandonou em San Marino depois de bater com a Prost de Shinji Nakano.
Em Mônaco, Hill se envolveu em um acidente com as McLarens de David Coulthard e Mika Hakkinen e abandonou ainda na primeira volta, enquanto que na prova seguinte, na Espanha ele novamente não completou a prova devido a problemas no motor. Apenas no Canadá, sétima prova do ano, Hill recebeu a bandeirada, na nona colocação.

Ele conseguiu completar também a corrida seguinte na França, em décimo segundo, e fez uma pilotagem surpreendente em Silverstone para conseguir marcar seu primeiro ponto pela equipe, com um sexto lugar. Na prova seguinte, na Alemanha, ele novamente recebeu a bandeirada, na oitava posição.
Com a performance do carro melhorando aos poucos, e com Hill começando a ter mais confiança na equipe, as expectativas estavam modestas para a décima primeira etapa do ano, em Hungaroring. Mas com certeza, ninguém esperava que Hill não só andaria bem nos treinos, mas se classificaria em terceiro, atrás da Ferrari de Schumacher e da Williams de Villeneuve.
Uma série de fatores acabou beneficiando a corrida de Hill no fim das contas. Schumacher teve de usar um chassi reserva mais pesado para a corrida; Heinz-Harald Frentzen, da Williams, teve azar na classificação; e os pneus Bridgestone usados pela Arrows tinham desempenho extremamente melhor e duravam mais que os pneus Goodyear das equipe de ponta.
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Assim, na largada, Villeneuve partiu extremamente mal, e Hill aproveitou para assumir a segunda posição, logo a frente da Ferrari de Eddie Irvine e da McLaren de Hakkinen, enquanto o canadense caiu para quinto, a frente de Frentzen. Apesar de ter saido na frente, a liderança de Schumacher sobre Hill não era grande.
Ao longo das primeiras voltas, os pilotos que corriam de pneus Goodyear estavam tendo de reduzir o ritmo para não destruirem os pneus, e assim Hill foi colando cada vez mais em Schumacher. O inglês conseguiu passar o alemão na Volta 10, assim tomando a liderança da prova.
Pouco depois, na Volta 14, Schumacher foi ao Box para fazer seu primeiro Pit Stop, enquanto Hakkinen abandonava a prova com problemas no motor. Irvine parou logo na sequência, o que promoveu Villeneuve e Frentzen temporariamente para segundo e terceiro. Após os dois pararem na Volta 17, o canadense voltou atrás de Schumacher, enquanto Frentzen caiu para quinto.

Por conta da parada adiantada, ambas as Ferraris teriam de fazer três Pit Stops para completarem a prova, enquanto Villeneuve, Frentzen e Hill se mantiveram em uma estratégia de duas paradas. Apesar de Schumacher ter brevemente reassumido a ponta pouco antes de seu segundo Pit Stop na volta 29, a estratégia dele o deixou preso no terceiro lugar.
Dessa forma, chegando na fase final da prova, Hill liderava com uma vantagem de 35 segundos sobre Villeneuve, que estava tendo de segurar o ritmo para poupar os pneus. Parecia que seria uma surpreendente mas tranquila vitória da Arrows com Hill, a primeira da equipe desde 1982. Porém, tudo mudou nos últimos minutos da corrida.
Faltando quatro voltas para o fim, a Arrows de Hill sofreu com um problema hidráulico, ficando travada na terceira marcha, o que fez o britânico perder muito ritmo. Imediatamente ao saber disso, a Williams instruiu Villeneuve a acelerar o máximo possível para alcançar o seu ex-companheiro de equipe.
Em apenas duas voltas, Villeneuve conseguiu tirar mais de trinta segundos de vantagem de Hill, e chegou colado no britânico na última volta da corrida. O piloto da Arrows tentou o seu máximo para se defender, mas o canadense conseguiu o ultrapassar, tendo de tocar na grama para fazer isso, e assumiu a ponta.

Assim, Villeneuve cruzou a linha de chegada para levar sua quinta vitória na temporada, enquanto Hill, graças a enorme vantagem construída durante a corrida, conseguiu levar seu carro até a bandeirada na segunda posição. Michael Schumacher chegou 20 segundos atrás para completar o pódio, na terceira posição.
Apesar da amargura de ter perdido a vitória na última volta, o segundo lugar de Hill foi comemorado imensamente tanto pelo piloto quanto pela equipe. Este seria o primeiro pódio do time desde o terceiro lugar de Gianni Morbidelli na Austrália em 1995, e foi também o melhor resultado do motor Yamaha na categoria.
Aquele também foi o primeiro pódio do nome Arrows desde o terceiro lugar de Eddie Cheever no GP dos Estados Unidos de 1989, naquela que foi a penúltima temporada da equipe com seu nome de batismo, antes de ser adquirida por Tom Walkinshaw e se transformar na Footwork. O novo nome durou até 1996, e em 1997 a equipe retornou a usar seu nome original,
Mesmo que o resto da temporada tenha sido relativamente apagado, com exceção de uma largada da quarta posição no GP da Europa em Jerez, aquele fim de semana em Hungaroring entraria para a história. Uma corrida incrível, onde sorte e o talento de um campeão mundial quase deram a vitória para uma equipe azarona.





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